Quilombolas do Matão, na Paraíba, conquistam parte de seu território há muito reclamado

Quilombolas do Matão comemoram imissão de posse

Quarenta famílias da comunidade quilombola do Matão, localizada nos municípios paraibanos de Mogeiro e Gurinhém estão em festa.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) concedeu imissão de posse a todas elas, uma antiga aspiração dos quilombolas.

A imissão de posse é inerente ao primeiro dos três imóveis do território quilombola de 214 hectares, identificado e delimitado como área remanescente de quilombo pela Superintendência Regional do Incra na Paraíba. A luta da comunidade é acompanhada há alguns anos pelo Ministério Público Federal (MPF), que obteve deferimento judicial acolhendo parecer favorável à imissão do Incra na posse dos dois imóveis restantes que integram o território quilombola do Matão.

A imissão da autarquia na posse da Fazenda Santo Antônio, com cerca de 118 hectares, ocorreu na presença de representantes do Quilombo Matão e de outras comunidades quilombolas, do superintendente do Incra/PB, Kleyber Nóbrega, do chefe da Divisão de Governança Fundiária da autarquia no estado, Antônio de Lisboa Dias, e do oficial de Justiça Federal Elder Saldanha Pontes Filho.

A principal fonte de sobrevivência das famílias do Matão é a agricultura, destacando-se o cultivo de feijão, milho e fava. De acordo com lideranças da comunidade, a expectativa das famílias é que a imissão de posse no primeiro imóvel agilize o quanto antes a titulação das áreas que ainda faltam.

Gana sempre – Depoimentos dos líderes da Associação do Matão, colhidos pela Ascom do Incra, revelam o impacto que o acesso à terra significará para o futuro das famílias quilombolas. Para a presidente da Associação do Matão, Josefa de Paiva Santos Silva, a comunidade quilombola agora começa a vislumbrar uma nova fase de muita alegria, esperança e trabalho. “Essa conquista é fruto de muitas lutas”, afirmou.

Josefa Paiva, mais conhecida como Zefinha, destacou a importância das mulheres na resistência e na conquista da terra. “Foram as mulheres que deram início a toda a luta e, ao longo da caminhada, envolveram os jovens e convenceram os maridos a participarem, dando apoio e acompanhando na mobilização”, contou Zefinha. “Meu coração está muito alegre por essa conquista maravilhosa”.

Cuidar da plantação – De acordo com o vice-presidente da associação, José Maximino da Silva, agora as famílias se sentem seguras e empoderadas por estarem de posse de uma área onde poderão desenvolver sua agricultura, o plantio de culturas de subsistência, como feijão, fava, milho, macaxeira e batata-doce, e ainda para desenvolverem suas criações de animais, a plantação de árvores frutíferas e a horticultura.

“A comunidade está em festa e segura, pois, a partir do próximo ano, já poderemos colocar nossos roçados e produzir nossos próprios alimentos. A conquista, mesmo que parcial, do nosso território já é uma garantia do retorno de muitos quilombolas que precisaram sair da comunidade para garantir a própria sobrevivência, o sustento de suas famílias. A partir de agora, a comunidade pode acessar diversas políticas públicas, o que antes era impossível por conta da falta da posse da terra”, disse o vice-presidente da Associação do Matão, José Maximino.

Onde houve possibilidades, houve conquista – A vitória, ainda que parcial, também foi comemorada pela presidente da Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (Aacade), Francimar Fernandes. “Estamos muito felizes com essa vitória da comunidade quilombola do Matão, ainda parcial, porque faltam as demais áreas. Após tantos anos de espera do reconhecimento, a justiça vai sendo feita e o direito conquistado. Destaco o papel muito importante da associação, das mulheres, dos jovens em especial, no processo de elaboração do território”, disse a presidente.

 

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